A musica clássica tocava ao
fundo, o cenário não era nem um pouco acolhedor, aquela única poltrona preta e
vermelha me incomodava, como se estivesse querendo passar a mensagem de que
havia alguém sentado bem ali me observando firmemente. O chão era quadriculado com
as mesmas cores da poltrona, o mesmo valia para as cortinas. Era um quarto sem
janelas e iluminado por velas que queimavam lentamente. O ar estava frio,
apesar de todo aquele calor emanando das velas, e ao canto esquerdo, havia um
piano. Eu sabia tocar piano muito bem, desde pequena, mas aquele piano estava
tocando sozinho, as teclas se abaixavam e compunham uma musica sinistra.
Estremeci levemente, o medo e a morte estavam perto de
mim, eu sabia disso.
- Deixe que tome conta de você... deixe a insanidade
entrar! Será tudo mais simples, tudo, tudo mais simples. – uma voz disse, ela
parecia vir de todos os cantos do quarto – Acabe com isso de vez, Katarina!
Acabe com sua indecisão! ACABE!
No mesmo momento, o quarto parecia ter se distorcido,
tudo estava girando e eu tinha a sensação de estar caindo de um lugar muito
alto, o frio na barriga tomou conta e tentei gritar, mas a pressão no ar era
tão forte, que meu grito saiu sem som algum.
Acordei assustada, suando e com a respiração muito mais
acelerada que o normal. Eu vinha tendo sonhos assim há quase um mês, não é nada
normal. Nada.
- Katarina Nichols! Desça aqui agora, ou você vai se
atrasar e acabar indo para a escola sem café da manhã. – era July gritando do
andar de baixo, ela era a governanta mais mandona que eu já conheci até hoje.
Tenho uma irmã gêmea, o nome dela é Elena Nichols, de
nossa aparência física a única coisa que muda é que ela usa óculos, e eu não.
Temos o mesmo olho azul, o mesmo cabelo preto ondulado, a
mesma pele branca como leite, a mesma boca avermelhada. 1m65cm de altura, meio
baixas para nossa idade, e nossos gostos são bem parecidos. Mas ela é toda
certinha, tem uma personalidade calma e sempre faz tudo que lhe mandam, não
questiona nada, nunca deixou de entregar uma tarefa na escola e sempre tira
notas de 8 para cima, seu cabelo é na altura dos ombros e é extremamente raro
vê-la com uma roupa de cor escura. Completamente o meu oposto. Eu sempre dou um
jeito de matar aula, ou chegar atrasada, se me mandam fazer algo, eu enrolo
para fazer até que a pessoa faça por si mesma por não ter paciência de ficar me
pedindo. Tiro notas básicas para passar de ano e são raras as vezes que entrego
a droga da tarefa, meu cabelo é no meio da cintura e nunca uso uma roupa
extremamente fofinha. Tia Judith me chama de “a ovelha negra da família”.
- Elena, acorde, temos que ir para a escola, senão July
vai ter um treco. – falei, completamente sonolenta.
- Katy, já estou pronta. Levante e se arrume logo, te
espero lá embaixo. – ela disse.
- Filha da mãe, nem pra me chamar quando você acordou?
Valeu viu? Isso é que é amor de irmã... – falei para ela.
- De que adiantaria? Você nunca chega no horário mesmo,
isso é, quando você chega.
- Aháhá, engraçada você. – respondi fazendo cara de
desgosto.
Elena estava usando uma saia rosa-bebê, com a blusa do
uniforme, usava uma sandália baixa e prata, seu cabelo estava amarrado com uma
fita vermelha e seus óculos de armação cinza estavam onde sempre estavam.
Aquele visual dizia: Sou
uma menina madura, inteligente e confiante.
Ela abriu a porta do quarto com delicadeza e saiu.
Desci do beliche com um pulo, eu dormia na parte de cima.
Abri a parte do guarda-roupa que eu dividia com Elena, peguei uma saia jeans
preta com uma corrente pendurada, uma meia calça bordada, a blusa sem graça do
uniforme com o logo da “High Elite Way”, deixei meus cabelos soltos e coloquei
um sneaker preto de salto.
Abri a porta do quarto, desci as escadas até a metade do
caminho, apoie minha mão no corrimão e pulei dali em direção ao “térreo” da
casa.
- Katarina! Já mandei parar com isso, algum dia você se
machuca. – disse July.
- Calma, se nunca aconteceu nada, não é agora que vai
acontecer. – passei pela cozinha tomei meu leite rapidamente e peguei um pedaço
de pão, tudo sem sentar-me à mesa, sai em direção ao banheiro para terminar de
me aprontar. Elena estava sentada na mesa toda delicada e comendo de vagar,
como sempre fazia.
Escovei meus dentes, peguei minha bolsa e disse:
- Tchau! Estou saindo!
Eu caminhava de vagar em direção à casa de Anelise, minha
melhor amiga, o sonho que eu tivera hoje ainda estava me incomodando, talvez eu
devesse conta-lo para Elena, ela saberia interpretar. Bom, nisso eu pensaria
depois.
Virei à esquina, mesmo que eu sempre saísse antes de casa,
eu sempre me atrasava ou desistia de ir a escola.
Passei pelo beco que sempre passava, mas algo me impediu
de continuar andando. Parei e olhei para o beco, bem lá no fundo havia uma
sombra, parecia uma pessoa agachada.
“Ajude-me”
Uma voz ecoou em minha cabeça, pensei estar ficando
louca, mas comecei a andar em direção à sombra.
- Precisa de ajuda? – perguntei.
Nenhuma resposta. Era uma menina de mais ou menos uns 12
anos, usando um vestido azul rasgado e estava descalça, tinha os cabelos loiros
e encaracolados.
- Você precisa de ajuda? – repeti um pouco mais alto.
Vi algo brilhando na frente da menina, e ela se virou
para mim.
Não era uma menina, era um monstro. Fiquei ali
paralisada, as presas saiam da boca, havia baba por todo lado e uma pessoa
morta a sua frente, a luz vinha do corpo sem vida. Um rosto desfigurado, os
olhos brilhavam em um vermelho intenso.
“Ajude-me!
Ajude-me!”
Mas o que era aquilo?
O que era aquela voz? O que era aquela criatura que avançava em minha direção?
Estiquei minha mão em direção a ela, como se eu pudesse me defender de algum
modo, mas ao invés disso, um brilho azul apareceu na minha palma e se espalhou
pelo resto da minha mão, formando uma luva preta. O brilho foi se espalhando
pelo resto do meu corpo, transformando toda minha roupa, minha saia preta virou
um shorts colado preto, minha blusa do uniforme virou um top branco com
detalhes em preto e uma capa apareceu atrás de mim, meu sneaker virou uma bota preta de cano alto.